A Cidade do Futuro – Destoante

Peu Agra . Há 3 anos atrás

Dentro das discussões acerca de um filme um dos tópicos que se aborda é como a trama consegue balancear seu tom ao decorrer da estória; manter o desenvolvimento coeso para não causar uma sensação contrária ao que se espera é um desafio comum em uma produção, pois uma falha pode acabar estragando a experiência do espectador. Em Cidade do Futuro, os diretores Cláudio Marques e Maria Hughes mostram de diversas maneiras que a quebra de ritmo nem sempre pode ser uma escolha ruim.

A trama gira em torno de jovens que resolvem assumir um relacionamento a três quando Milla engravida de Gilmar que até então namorava com Igor, a decisão dos personagem por si já destoa dos costumes da cidade onde os habitantes são bastante conservadores e tanto a homossexualidade quanto relações poligâmicas são tabus que os protagonistas precisam enfrentar.

O lugar por si já possui um background profundo por ser fundado por moradores de outras quatro cidades desocupadas no período da ditadura para a construção da Barragem de Sobradinho e em alguns momentos o longa deixa de lado sua narrativa para tomar uma estética documental onde moradores relatam suas vivências durante o processo de transição. Essa é uma quebra de tom brusca, porém funcional dentro da proposta.

O choque entre ficção e realidade vai mais além quando se descobre que a trama do trisal é uma retratação da vida deles fora das câmeras. Milla realmente está esperando um bebê e o dilema dos três em confrontar o preconceito da população é um problema real abordado com uma linguagem fictícia.

A retratação do ambiente e habitantes de Cidade do Futuro também é algo que se diferencia de outras produções do gênero por optar por uma estética menos hiperrealista e abordar o cotidiano tranquilo e calmo do lugar com mais naturalidade. As quebras de contexto podem parecer confusas e causar um estranhamento de início, mas tomando o título como base podemos perceber a cidade como um personagem ao redor do qual diversas estórias são contadas por viés diferentes, por isso as cenas de depoimentos se encaixam com o relacionamento pararrealista dos jovens por serem desenvolvidas com foco em evidenciar a vida daquele povoado.

Dentre os aspectos técnicos ressalto a edição de som que é um ótimo exemplo de como se pode fazer um bom trabalho com recursos limitados, e a trilha sonora que possui muito significado dentro da simplicidade e consegue ser marcante. No início o longa se mostra um pouco confuso, talvez por conta de algumas cenas mal encaixadas dentro da trama, porém à medida que ele se desenvolve vai se tornando fluido e facilmente compreensível. Portanto se pode ter um ótimo aproveitamento de toda a obra com seu significado, beleza e originalidade.

 

Título: A Cidade do Futuro

Lançamento: 26 de Abril de 2018

Duração: 1h 15m

Gênero: Drama

Direção: Cláudio Marques, Marília Hughes

Elenco: Milla Suzarte, Gilmar Araújo, Igor Santos

Escala: 3/5 acarajés.

 

Cineasta em formação, fotógrafo por diversão, artista em evolução e escritor, por que não? Também sou o pai de Joaquim, o bebezudo.

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