A Construção familiar Almodovariana: O que eu fiz para merecer isto?

Vinicius Dias . Há 1 ano atrás

ATENÇÃO: ESSA PUBLICAÇÃO CONTÉM SPOILERS.

 

O quarto filme de Almodóvar (1984), mostra a história de Glória, uma dona de casa que trabalha como empregada nas horas vagas. Glória vive com o seu marido taxista (machista e ainda declaradamente apaixonado por uma Alemã que foi sua patroa há 15 anos), com seus dois filhos (um garoto de programa e um traficante), sua sogra e um lagarto. A infelicidade vivida pela protagonista do filme, que tem a sua vizinha prostituta como única amiga, faz com que ela desenvolva um vício em anfetaminas, que a ajuda a manter-se acordada para realizar todos os afazeres do trabalho e de casa.

As primeiras cenas do filme mostram Glória trabalhando como assistente numa academia de luta, onde acaba traindo o marido com um dos alunos. O semblante triste e cansado da protagonista e a traição sem remorsos evidencia uma pessoa que não é feliz, inclusive no casamento, mesmo antes de apresentar a relação dela com o marido. A constatação do casamento infeliz se dá nas cenas subsequentes do filme, que mostram a protagonista totalmente submissa ao seu marido. As cenas seguintes mostram que além do marido, a sogra também faz questão de lembrar que o lugar de Glória é como uma servente dentro de casa, fazendo com que ela só coma depois de todos comerem, para ficar com a pior parte.

Os problemas familiares seguem ao mostrar o filho mais velho se encontrando com traficantes para pegar drogas que seriam comercializadas mais tarde. Entre os fatores que podem ter levado o filho de Glória a se tornar um traficante de drogas, podemos destacar a ausência de comunicação entre ele e os seus pais no lar conturbado do qual ele fazia parte. O relacionamento do pai (que sempre estava acompanhado da avó do menino) se restringe a falar mal da escola e ensinar o filho a falsificar letras (habilidade que o seu pai dominava desde quando morava na Alemanha).

Nesta parte do filme, fica evidente que a protagonista não tinha voz sequer para repreender o comportamento transgressor do filho, sujeitando-se apenas a concordar com  tudo que estava acontecendo dentro de casa. Até este momento, Almodóvar mostra uma mãe alheia a todos e que não representava a mulher que rompe com costumes impostos por uma sociedade patriarcal.

O tema da prostituição é abordado no filme ao apresentar Cristal, vizinha que trabalhava como prostituta e única amiga de Glória. Logo na primeira aparição de Cristal, a protagonista assume que tem inveja do estilo de vida livre que a amiga leva e confessa que se arrepende de um dia ter se casado. Mas o que realmente chama a atenção do telespectador é a normalidade com que o assunto é tratado quando somos apresentados a Miguel, filho mais novo, que também assume ser garoto de programa, que dorme com os pais dos seus amigos. Nas cenas que sucedem essa revelação, podemos ver Glória oferecendo calmantes para acabar com a fome que o filho estava sentindo, já que não tinha mais comida em casa.

A partir das cenas mostradas no filme, podemos perceber que o que a sociedade considera como “bons costumes” são colocados à prova, quando o cineasta dá visibilidade a assuntos que antes eram considerados como marginalizados e que agora se mostram naturalizados em ambientes familiares, como prostituição e uso de drogas.

As cenas seguintes mostram Glória levando Miguel ao dentista, que a pergunta se não desejaria que ele vivesse em sua casa, como seu filho adotivo. A dona de casa não exita e questiona ao seu filho se ele gostaria de viver com o dentista, alegando que a vida na casa deles já não está muito boa. Entre algumas reivindicações, Miguel afirma que leva um estilo de vida livre e que não gosta de ser controlado e acaba aceitando o pedido da mãe, que sai com a carteira cheia de dinheiro e compra o produto para cabelo que tanto queria. Nessa parte do filme, percebemos que Almodóvar põe em evidencia a ruptura com as  organizações sociais que eram impostas as mulheres no que dizia respeito às estruturas familiares.

No decorrer do filme, vemos Antonio, marido de Gloria, receber uma ligação de uma antiga patroa alemã, por quem ele ainda era apaixonado, e que queria que ele falsificasse a letra de Hitler para por em um livro. E por conta dessa situação, Glória tem um ataque de ciúmes e sai à procura de calmantes, que lhe são negados pela farmacêutica que alegou que agora só vendia esses medicamentos com receitas.

Voltando para casa e durante um acesso de fúria, Glória acaba golpeando e matando o seu marido que lhe havia dado um tapa no rosto. Depois desse acontecimento, o filho mais velho e a avó decidem se mudar para a aldeia, deixando Glória sozinha dentro de casa. Sem remédios e sentindo-se abandonada por todos, Glória volta para casa chorando e tenta se matar, porém não tem coragem de levar esse plano adiante.

No final do filme, a volta do filho mais novo, que alega que não consegue viver com o dentista devido ao seu estilo de vida livre, acaba trazendo de volta a felicidade de Glória, que termina o filme abraçando o seu filho. Podemos perceber que o cineasta mostra uma protagonista que reestrutura sua família, que antes estava previamente estruturada pelo modelo tradicional, evidenciando o renascimento da mulher, depois de tantas agressões e traumas e que mesmo diante de todos esses problemas, não consegue romper laços e acaba amparando o seu filho mais novo.

Qué he hecho yo para merecer esto? consegue reunir os dois principais gêneros abordados nos filmes de Almodóvar: o melodrama e o humor, ao relatar o vício em drogas de Glória e o machismo ao qual ela era submetida, não tendo reconhecimento por todo esforço feito.

Título: Que he hecho yo para merecer esto?
Lançamento: 1984.
Duração: 1hr 41min.
Gênero: Drama
Direção: Pedro Almodóvar.
Elenco: Carmen Maura, Chus Lampreave, Verónica Forqué e mais.
Nota: 4/5 acarajes.

26 anos, formado em Letras, Espanhol e Literaturas e grande fã de filmes de terror.

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