A Maldição da Residência Hill – Um terror, como o terror deve ser.

Háron Souzza . Há 2 anos atrás

Vou iniciar este texto com um alerta: Essa crítica foi uma das quais eu mais demorei para escrever. Diversos motivos me faziam empacar nela, eu queria escrever sobre tantos assuntos e tantas coisas, mas organizar minhas ideias e tentar seguir uma linha lógica foi bem complicado, e eu acho que falhei mortalmente. Depois de começar e parar umas três ou quatro vezes, finalmente consegui concluir essa difícil tarefa, e digo-lhes que sem dúvidas, é uma das maiores críticas que já escrevi. Então, desejo-lhes boa sorte, e digo-lhes que quem realmente chegar até o final, pode se considerar meu amigo, ou no mínimo, um ser de muita paciência…

Mês passado, algo inusitado me aconteceu. Uma pessoa me pediu para escrever sobre algo, pois queria saber a minha opinião a respeito. Meu primo, João (já deixo aqui meu agradecimento a você por essa indicação maravilhosa, vlw JP) me indicou um seriado e falou que gostaria de saber o que eu acharia. Confesso que fiquei meio relutante, pois o seriado em questão era de terror. Não que eu não aprecie o gênero, pelo contrário, gosto muito de filmes slasher, como Halloween, A Hora do Pesadelo, Sexta-feira 13, etc. Mas esse meu gosto não teve uma iniciativa própria, surgiu quando tive a honra de me relacionar com uma das melhores pessoas desse mundo, a minha noiva. Naquela fase do relacionamento onde descobrimos as coisas favoritas um do outro e damos uma chance a isso. Pois bem, foi me permitindo mergulhar no peculiar gosto da mulher dos meus sonhos, que passei realmente a curtir o terror. Mas quando o assunto é espírito e casa mal assombrada, aí a história muda, meu caro.

Não tenho vergonha em dizer que sou cagão pra essas coisas. Talvez as minhas crenças tenham uma parcela de culpa, pois para uns o que não passa de uma história, para mim representa uma possível realidade. Mas vamos voltar ao assunto em questão. Recebi uma indicação, fui desafiado a assistir A Maldição da Residência Hill.
Porra, cara, fala sobre assombrações, minha companheira de terror não está presente para me acompanhar, como raios vou assistir à isso? Simples, é só assistir durante o dia, ué. E foi exatamente o que eu fiz. Comecei a assistir o novo seriado de terror da Netflix somente durante a manhã, e mal sabia eu, que, de certa forma, estava “protegido” [fica aí a referência].

A Maldição da Residência Hill (Netflix, 2018)

O seriado logo no primeiro episódio, nos dá uma ideia de todo o enredo. Ao logo dos seus 60 minutos iniciais, a obra já mostra muita coisa e insere em sua mente uma ansiedade absurda para desvendar esse mistério. Ansiedade foi realmente uma das coisas que eu mais senti durante os episódios, de formas positivas e negativas, ao longo de muitos minutos. Foi algo meio indescritível, e as vezes até desconfortável. Eu nunca fiquei tão curioso e ao mesmo tempo relutante em desvendar um enredo antes mesmo do fim. Era como se eu estivesse em uma competição interna, desafiando-me a entender o mais rápido possível. E quando ia me aproximando cada vez mais do fim, começava a ficar frustado por não ter descoberto tudo que queria antes da hora, sentindo um gosto amargo quando as respostas eram dadas pela produção e não adivinhadas por mim. Isso me cativou muito, pois em sua maioria, os filmes de terror costumam entregar o seu sentido, antes mesmo de uma aproximação da resposta. Pois bem, ele realmente não faz isso. Mas vamos voltar ao seriado.

De início, fui apresentado aos 7 protagonistas dessa aventura. Um pai esforçado em melhorar a casa para poder vendê-la, conhecido como Hugh Crain (Henry Thomas / Timothy Hutton). Uma mãe focada em projetar um novo lar, enquanto ajuda o marido nas reformas, batizada de Olivia Crain (Carla Gugino). E seus 5 filhos, cada um com sua personalidade cativante. O mais velho e cético, recebe o nome de Steven (Michiel Huisman / Paxton Singleton). Em seguida temos a metódica e organizada Shirley (Elizabeth Reaser / Lulu Wilson). Continuando a família, temos a “sensível” e isolada Theodora “Theo” (Kate Siegel / Mckenna Grace). E por fim, temos os gêmeos, o curioso, amigável e problemático, Luke (Oliver Jackson-Cohen / Julian Hilliard), e a doce, inocente e “assustada”, Nell (Victoria Pedretti / Violet McGraw).

A produção é dividida em 10 episódios, e neles, acompanhamos tanto o passado, quanto o presente, focando em cada personagem com o avançar da trama. Essa mescla entre passado e futuro foi algo realmente bom e prazeroso de acompanhar. Feita de uma forma majestosa, totalmente bem articulada, encaixada – e claro – bem produzida. Mais a frente, falarei detalhadamente dos planos e da fotografia, mas gostaria de já ressaltar, a magnitude da perfeição dos enquadramentos, visando o momento e a mensagem a ser passada, foi algo que realmante me chamou a atenção.

A Maldição da Residência Hill (Netflix, 2018)

Mais uma vez, eu pauso um pouco a narrativa envolvendo o seriado, mas dessa vez, peço-lhes licença para contar-lhes um evento que me ocorreu, no período que assistia a essa maldição.

Eu recebi uma visita de alguns parentes, e entre eles, estavam uma tia e uma prima minha. Como é de costume na minha família, ficamos até tarde conversando na varanda, contando casos aleatórios e colocando a conversa em dia. Porém, em determinado momento, o assunto tomou um rumo muito interessante. Algo que me deixou com um pouco de medo, mas muito mais encantado. Estávamos conversando sobre mediunidade e espiritismo, e o assunto recaiu sobre a casa na qual vivi uma parte da minha infância. Casa esta que serviu de moradia para os meus avós e todos os meus tios. Pois bem, foi nessa casa que eu tive – de certa forma, acredito eu – meu primeiro contato com algo que poderia soar “sobrenatural”. Não, nunca vi espíritos ou ouvi vozes. Mas posso afirmar já ter visto vultos e ouvido passos. Sempre quando eu e meus primos nos reuníamos para dormimos juntos, ouvíamos algo do tipo e ficávamos assustados. Em boa parte, tinha uma explicação w, claro, mas algumas vezes, não.

E foi conversando sobre esta casa (que já adiantando, ainda existe e não acontece mais nada) que eu pude ouvir e me surpreender com as histórias da minha tia e prima. Histórias de contatos, conversas e visões. Cada uma mais magnífica do que a outra. Algumas realmente chocantes e desconfortáveis, mas todas com muitos detalhes curiosos. Uma noite que sem dúvida está registrada na minha mente. E o que deixou tudo mais maravilhoso, foi estar mergulhado no enredo de A Maldição da Residência Hill.

Voltando…

Vamos analisar o roteiro e seus elementos. Temos em tela, um seriado que brinca com a versão jovem e a versão adulta (ou mais velha) dos protagonistas. Temos então, uma dificuldade em passar a mesma essência em ambos os tempos. Como criar características que sejam assimiladas, tanto no personagem do passado, como no personagem do futuro? Como conectá-los e fazer com que sejam reconhecidos e aceitos em ambas as versões? Bom, eu não sei exatamente qual a fórmula para algo tão complicado, mas certamente os roteiristas sabiam, e o desafio de fazer-nos acreditar que o ator adulto era uma versão adulta do ator criança, foi de fato cumprido.

Dizendo isso, podemos partir para a atuação. Começando com os jovens atores, os protagonistas mirins. Atuação de criança sempre é algo complicado e delicado, ainda mais em produções com teor sombrio e assustador. Mas as estrelas desse seriado, brilharam e muito. Paxton Singleton no papel de Steven criança, não teve tanto destaque quando a sua versão mais velha de Michael Huisman, que entregou um adulto cético, porém em conflito com o que realmente acreditava ou não. Assim como Lulu Wilson, como a pequena Shirley, que apesar da boa atuação e de momentos marcantes, teve sua personagem mais aproveitada em sua versão adulta, vivida por Elizabeth Reaser. Mckenna Grace conseguiu me cativar mais, interpretando a jovem Theo, que no futuro foi amplamente aproveitada e embutida em diversos conflitos, vividos por Kate Siegel. Mas para mim, as grandes estrelas do seriado são os gêmeos. O pequeno Julian Hilliard, com uma das atuações mais fofas do mundo no papel do pequeno Luke, com traços de inocência e doçura que só uma criança conseguiria. Sua versão adulta, interpretada por Oliver Jackson-Cohen também é bem elaborada e tem um maior aproveitamento. E a pequena Nell, que tem a sua versão adulta vivida por Victoria Pedretti, não muito aproveitada, e sua versão infantil feita por Violet McGraw, como uma das almas do enredo.

Além disso, claro, temos as atuações de Henry Thomas, como o pai da família, Hugh Crain, em sua versão mais jovem. Thomas tem uma participação maior como o seu personagem, do que o intérprete da sua versão mais velha Timothy Hutton, porém, ambos são extremamente interligados em dar vida ao mesmo personagem.
A única atriz que não tem uma companheira dando vida a mesma personagem é Carla Gugino, que teve a responsabilidade de sozinha, dar vida à Olivia Crain. Um dos grandes mistérios do seriado, recaem sobre a sua personagem, e foi um dos grandes motivos da minha ansiedade.

A Maldição da Residência Hill (Netflix, 2018)

E já que eu voltei a falar em ansiedade, vou discorrer mais sobre ela e a obra. Esse novo terror da Netflix tem um aspecto diferente dos outros. Ele nos envolve em uma trama complexa, cheia de fios soltos, que aos poucos vão sendo desvendados, mas não em uma velocidade comum ou em um ritmo sequenciado. A dúvida que temos no início do episódio, pode demorar outros três para ser respondida, ou pode ser respondida no episódio seguinte e deixar outros diversos questionamentos em sua mente. Isso mexeu muito com a minha ansiedade, além, é claro, da atmosfera criada pela produção, com todos os aspectos. Da direção de arte ao foley, tudo é tão bem elaborado e consistente, que realmente te draga para dentro das paredes e te prende junto com eles na Residência Hill.

Ao analisarmos a fotografia, podemos ver a simplicidade e ao mesmo tempo a complexidade dos planos e dos movimentos. As mudanças entre o passado e o futuro, os aspectos adquiridos para cada um deles, as películas, seguem uma cadência e uma ordem, dando o devido aspecto a mensagem que está sendo passada. Muitos planos gerais, o uso de Planos médios curtos e Planos americanos, em boa parte dos conflitos entre os adultos, além de claro, excelentes planos sequência de câmera na mão, em momentos realmente angustiantes. Planos simples, feitos de forma complexas, com movimentos e jogos de câmera que dão prazer de assistir.

E é com essa dualidade entre o simples e o complexo, que o seriado se constrói, caminhando entre dois mundos e dois tempos, sem uma singularidade de movimento, desbravando o pessoal e o coletivo de cada um dos protagonistas, mesclando as suas personalidades e as suas relações, criando um vínculo e ao mesmo tempo, um afastamento entre eles. Dando espaço ao imaginário do telespectador, com diversas perguntas e respostas, fora de ordem, mas seguindo uma lógica. Um enredo que não se sustenta no clichê padrão. Que não depende dos sustos e das assombrações para te causar desconforto. Um mistério que te causará agonia em desvendar. Um desafio aos ansiosos, um deleite aos curiosos, um terror, como o terror deve ser

A Maldição da Residência Hill (Netflix, 2018)

Com isso, eu deixo aqui o meu desafio a vocês: Assistam e escrevam sobre, eu certamente lerei. Basta me procurar no instagram (@souzzaron) e me mandar o link, vamos todos compartilhar nossas impressões sobre essa obra tão diferente, criar um grupão de teorias e se divertir até uma esperada continuação. No mais, obrigado por terem lido até aqui, e é isso.

 

Título: A Maldição da Residência Hill (The Haunting of Hill House, Netflix, EUA, 2018)
Lançamento: 12 de outubro de 2018
Duração: 60min por episódio
Gênero: Drama e terror.
Direção: Mike Flanagan
Elenco: Michiel Huisman, Carla Gugino, Elizabeth Reaser e mais
Nota: 5/5 acarajés.

 

 

Soteropolitano, 26 anos, publicitário que ama quadrinhos e ganha a vida testando jogos. Fãboy da Blizzard, ama suspense, terror, ficção cientifica e drama.

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