Altered Carbon – A nova aposta da Netflix

Nerd com Dendê . Há 3 anos atrás

E se a humanidade chegasse num nível de tecnologia onde até seus corpos são recicláveis e descartáveis, e as únicas coisas que importassem seriam suas consciências imortais espalhadas pelo mundo? Essa é a premissa base do universo da nova série da Netflix, Altered Carbon.

Adaptação do livro de Richard K. Morgan, a nova aposta de série traz um futuro Cyberpunk que bebe de fontes como Blade Runner e Ghost in the Shell para criar um universo novo e cheio de possíveis reflexões sobre a morte, e consequentemente, a vida.

Através de um estilo Noir, tudo começa quando um terrorista é acordado 250 anos após sua morte com o objetivo de resolver um crime de assassinato. Takeshi Kovacs, hoje, possui uma nova capa mas ainda carrega o título de emissário que outrora assustou o mundo dos imortais. Para a durabilidade da “alma”, cada pessoa possui um implante chamado Stacks, onde são armazenadas todas as suas memórias. Quando esses dispositivos são comprometidos, a pessoa é dada como morta, ou como dizem na trama: uma morte real. Essa é uma das partes mais interessantes da história, até porque há diversas maneiras de contornar a morte, desde ficar mudando de corpo em corpo, até criar clones ou backups para assegurar sua vida eterna. E é ai que entra as críticas ao capitalismo e ao sistema de classes sociais, onde quanto mais dinheiro e influencia a pessoa tiver, mais acesso a “capas boas” e backups você terá. E a série trabalha muito bem com essas questões, mostrando exemplos constantes, como crianças que são implantadas em capas adultas, por não possuir renda para uma “capa melhor”, ou até mulheres tendo que permanecer num corpo masculino.

Falando em corpos, o que mais é apresentado ao telespectador nessa série são corpos. Ao contrário de filmes como o novo Ghost in the Shell, Altered Carbon consegue, de forma primorosa, encaixar diversas culturas, cores, orientações sexuais e raças em personagens principais e coadjuvantes, trazendo riqueza étnica a esse universo de forma não-forçada. Entretanto, nem tudo mostrado era realmente necessário. Vindo de um livro considerado por muitos como machista (por ser escrito por um homem que sempre retratava as personagens femininas como objetos de satisfação do protagonista da trama), o seriado acaba por trazer alguns elementos de nudez que podem incomodar algumas pessoas. Não apenas por ser nudez, mas por evidenciar demais o corpo feminino e não o masculino. A partir do momento em que todas as mulheres têm suas intimidades totalmente à mostra, e os homens não, temos ai um problema. Vale ressaltar que o seriado tem uma mulher por trás das câmeras, a redatora e produtora Laeta Kalogridis, que pode ter minimizado do jeito que pode essas questões.

Da para perceber o quanto a Netflix investiu apenas observando a divulgação constante para o público e o visual futurista e detalhado da trama. Grandes partes das gravações não foram feitas em tela verde e sim em grandes locações em Vancouver, o que transmite cenários belíssimos e detalhes essenciais para sustentar um universo rico cyberpunk. Temos como destaque o Hotel Raven, que traz elementos do século 19, mas não perde a essência da distopia.

Assim como ocorria no livro de Morgan, as pessoas não conseguiam se conectar e nem ligar com o que acontecia com as personagens principais. O diferencial dessa adaptação é que além de ter dado mais poder as mulheres, como Ortega, eles também trouxeram novas roupagens a alguns personagens que viraram regulares na série. Joel Kinnaman, que interpreta Kovacs, não conseguiu acrescentar nenhuma característica nova ao personagem. Sempre com uma cara séria e metido a bad boy, foi uma das personagens que as pessoas menos ligaram, mesmo sendo o principal. Coisa que o Will Yun Lee, a versão asiática de Takeshi, fez muito bem. Mesmo aparecendo pouco, as pessoas se importavam e queriam ver mais dele na trama. Ortega, interpretada por Martha Higareda, foi uma personagem feminina muito bem desenvolvida e criada para ser a favorita de todos. Entretanto, sinto que a atriz não conseguiu convencer totalmente como “badgirl”, apesar de possuir um carisma legal. Destaque para Poe (Chris Conner), a inteligência artificial que comanda o Hotel Raven, que traz um show de atuação, simpatia e questões como: o que é ser humano, e quão humano um IA pode ser.

Sobre o mundo do futuro, sempre há diversas citações sobre o quão longe a humanidade já se espalhou e que conquistou diversas estrelas/galáxias, entretanto, nenhuma delas foi se quer mostrada. Apesar de haver muitos questionamentos, Altered sempre deixa diversos diálogos soltos, tentando filosofar sobre determinados pensamentos, mas a reflexão que permanece no telespectador é a de quão forçada e mal acabada aquelas frases foram. Os melhores pensamentos que a série trouxe, foram aqueles que nem se quer precisaram de rios de diálogos expositivos.

Altered Carbon é recheada de picos de ação, trazendo no episódio 7 seu maior plot twist. E foi a partir desse episódio que a série me perdeu. Apresentando uma personagem nova ao elenco, a trama começa a ter um ritmo estranho. Acelerando uma parte da história e desenvolvendo outra por cima, tudo começa a se chocar e formar uma bagunça. As motivações de determinadas personagens ficam sem sentido e totalmente mal exploradas, ainda trazendo um mau gancho para a possível nova temporada.

Enfim, apesar de Altered Carbon ser uma boa série e ser bem executada, não é o tipo de seriado que da vontade de maratonar. Seu piloto não é dos melhores, mas entretém e com seu final duvidoso, a trama não conseguiu suprir o hype que a Netflix tinha colocado nos seus consumidores.

Nome: Altered Carbon (1ª Temporada)
Lançamento: 2018
Duração: 10 Episódio; 58 Minutos
Direção: Alex Graves, Andy Goddard, Miguel Sapochnik, Nick Hurran, Peter Hoar, Uta Briesewitz
Gênero: Policial, Ficção científica, Suspense
Nota: 3,8/5

Conteúdo nerd, com uma dose generosa de dendê

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