BAÚ DA NERD #04: The Handmaid’s Tale: E se a Bíblia virasse lei?

Nerd com Dendê . Há 5 meses atrás

Há 3 anos, a NcD falava sobre uma das séries distópicas (mas nem tanto) mais famosas do mundo. E hoje é dia de relembrar o que a gente achou de The Handmaid’s Tale, ou como é mais conhecida: O Conto da Aia.

Baseada no livro “O conto da aia”, da escritora canadense Margaret Atwood, lançado em 1985, a série The Handmaid’s Tale habita um futuro fictício não muito distante, onde a degradação ambiental trouxe diversos problemas, entre eles, a infertilidade. É nesse contexto de fragilidade política que um grupo totalitário toma o poder e instaura um regime teocrático baseando-se nas leis do antigo testamento. As mulheres perdem todos os seus direitos assegurados pela democracia e passam a ser divididas em dois grupos: férteis e inférteis. As que compõe o primeiro grupo são chamadas de “aias” e designadas a servirem homens de grande influência nos EUA, que agora se chama República de Gileard.

Elisabeth Moss interpreta June — papel que lhe rendeu um Emmy de melhor atriz em 2017 — uma mulher comum, mãe , esposa, com um emprego estável e uma vida confortável. June vê tudo mudar quando o novo regime instaurado no governo bloqueia as contas bancárias de todas as mulheres, as retiram dos seus empregos e passam a capturá-las para, quando férteis, servirem de aias.

Segundo os ensinamentos do antigo testamento, mulheres foram criadas principalmente para procriarem, e é baseando-se nesses escritos que o governo determina que, mensalmente, cada aia participe do que chamam de “O Ritual”: cerimônia onde o chefe da família, na presença da sua esposa, estupra a aia com o objetivo de gerar filhos, tudo devidamente respaldado na Bíblia Sagrada.

 

A série é narrada por June, que agora chama-se Offred por conta da família a qual foi designada, e consegue nos transportar para a mente da personagem. Afastada da filha e do marido, obrigada a seguir a agenda de Rituais e diariamente silenciada, Offred fala muita mais com as expressões do seu rosto do que com as palavras. No universo de The Handmaid’s Tale não parece haver espaço para reivindicar mudanças: as centenas de pessoas que se posicionaram contra o regime totalitário foram fuziladas ou levadas para campos de concentração, gays foram enforcados e tiveram seus corpos expostos pelas ruas, mulheres lésbicas, quando férteis, tiveram suas vidas poupadas, entretanto, por serem consideradas “traidoras do gênero”, sofreram mutilação genital para que não pudessem mais sentir prazer.

Apesar do sentimento de dor e revolta que se arrasta por toda a temporada, vemos crescer em Offred uma sede de justiça, motivada principalmente pela ausência da sua filha. Mas como resistir e se voltar contra um governo que tem olhos por toda parte? Essa é uma das perguntas que promete ser respondida na segunda temporada da série. Entretanto, uma cena do último episódio nos faz cogitar a possibilidade de uma possível Revolução das Aias, liderada por June.

The Handmaid’s Tale trabalha a linha tênue que separa a ficção da realidade. Os absurdos narrados e que parecem existir apenas da trama, estão acontecendo neste exato momento em diversos lugares do mundo. No Iêmen, país árabe que ocupa a extremidade sudoeste da Península da Arábia, a mulher deve permitir relações sexuais com o marido sempre que estiver fértil. Atualmente em treze países, homossexuais (na série chamados de “traidores do gênero”) são punidos com pena de morte. No Congo, se o estupro for cometido pelo marido da vítima, não é um crime.

Para além da obra de Margaret Atwood, “O conto da aia” nos coloca em uma posição de reflexão. Diversas vezes, durante a série, imaginei onde eu e as pessoas que me cercam estariam se vivêssemos todos na República de Gileard, a resposta veio automaticamente: estaríamos quase todos mortos ou em situações desumanas. A série, que me parece ter um tom quase profético, levou às ruas diversas mulheres vestidas de aias, manifestando-se contra a desigualdade de gênero e políticas que tentam diminuir a liberdade feminina. Nos EUA, uma das manifestantes carrega a frase “Eu li os livros, não quero vivê-los”. Outra, consegue resumir o sentimento da maioria das pessoas que acompanharam a primeira temporada da série ao dizer que quando a injustiça se torna lei, a resistência se torna um dever.

Escrito por: Hugo Ricardo

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