Beasts of No Nation – A perda da inocência numa terra de ninguém

Nerd com Dendê . Há 4 anos atrás

Na medida em que devasta lugares inteiros e ceifa seus moradores – que, na maior parte das vezes, nada tem a ver com os confrontos, e são os que mais sofrem por causa deles -, são as guerras que levam ao fim da inocência de seus combatentes e lhes retira a capacidade de se importar com o próximo.

É esse o efeito abominável tão enfatizado por “Beasts of No Nation”, filme dirigido pelo experiente Cary Joji Fukunaga (“True Detective”), que acompanha a jornada do jovem Agu (Abraham Attah), ao tornar-se o precoce soldado de um grupo de oposição ao governo do seu país logo perder a família, no mesmo contexto da guerra onde está inserido.

Um dos maiores acertos do filme, aliás, é estabelecer Agu, de fato, como o protagonista da narrativa, permitindo ao espectador acompanhar o desenvolvimento da criança que perde os traços e reações infantis, para dar lugar a um combatente sem escrúpulos ou propósito que não seja o de matar seus oponentes.

E é preciso destacar, a fantástica performance de Abraham Attah, que torna verossímil essas mudanças de personalidade. Esta transformação é escancarada ainda através de um plano sequência que enfatiza a frieza e amargura do jovem combatente, que já não vê mais traços de identidade com a criança que deixou de ser.

Mas além de Attah, o elenco coadjuvante tem seus méritos, afinal, é justamente a influência de Idris Elba, o principal motor de desenvolvimento do protagonista. Moldado entre a falta de escrúpulos e o afeto paternal, principalmente em relação ao seus soldados mais jovens (que mal atingem os 10 anos de idade), o Comandante vivido por Elba é o mais ambíguo dos personagens.

Essa construção feita por Elba é necessária, já sem mostrar a existência do mínimo de humanidade, o espectador o veria como um monstro irrecuperável. Afinal, não há outra nomenclatura em quem encara, mesmo nas crianças, a capacidade de segurar uma arma, apenas por ter mãos capazes para isso.

Mesmo reconhecendo a força desses personagens, o cenário em que estão inseridos é ainda mais hostil. Entre selvas e cidades parcialmente destruídas, muros onde se encontram mensagens de paz contrastam com perfurações de balas neles próprios, e ilustram o pessimismo de um futuro incerto e já perdido, independentemente de que lado vença.

Fukunaga ainda comprova uma direção eficiente ao não ter medo de chocar seu espectador em qualquer cena que seja explorada a violência gráfica, e, também ao levantar questões sobre quem de fato pode “ganhar” a guerra.

Este alto comando, por sinal, dificilmente vai a campo ou pega em armas, isolando-se em seus gabinetes cuja limpeza e sofisticação, contrasta com as cidades e campos de refugiados abandonados, tal como os ternos que vestem, fazem contraponto aos trapos que vestem seus subordinados.

Aliás, ao nunca identificar o país (tudo que podemos é supor que seja alguma nação africana, dada as características de seus personagens e ambientações), ou mesmo a causa específica do confronto, o diretor também enfatiza a crueldade e o nível de banalidade que esses conflitos já alcançaram, ao longo de décadas, devido a tantos contextos semelhantes – e igualmente tristes.

 

Nome: Beasts of No Nation
Data de lançamento: 16 de outubro de 2015 (Brasil)
Duração: 2h17
Direção: Cary Joji Fukunaga
Roteiro: Cary Joji Fukunaga – baseado no romance de Uzodinma Iweala
Elenco: Abraham Attah, Emmanuel Afadzi, Kobina Amissah-Sam, Ama K. Abrebese, Fred Nii Amugi, e Idris Elba.
Nota: 5/5

Conteúdo nerd, com uma dose generosa de dendê

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