Investigação Nerd: O Caso Bernardo Boldrini.

Vinicius Dias . Há 11 meses atrás

No dia 14 de abril de 2014, o corpo de Bernardo Boltrini foi encontrado em uma cova feita num matagal, no interior de Frederico Westphalen. Foram acusados e condenados pelo crime o pai Leandro Boldrini, a madrasta, Graciele Ugulini, a amiga dela, Edelvânia Wirganovicz e o irmão desta, Evandro Wirganovicz.

Bernardo Boldrini.

QUEM É BERNARDO? 

Bernardo nasceu em 6 de setembro de 2002, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, ele era filho de Leandro Boldrini e Odilaine Uglione. Morava em Três Passos com o pai, a madrasta, Graciele Ugulini, e uma meia-irmã pequena, filha do casal. Sua mãe havia cometido suicídio em 2010, no consultório do pai. 

O CASO

Em abril de 2014, Bernardo foi dado como desaparecido. O seu pai comunicou aos policiais que ele tinha ido dormir na casa de um amigo em 4 de abril, numa sexta-feira, mas quando chegou ao local em 6 de abril, descobriu que o garoto nem havia chegado lá. Após o início das buscas pelo menino, a polícia chegou a Edelvânia, além de descobrir que, no início da tarde de 4 de abril, Graciele, a madrasta, havia sido multada pela polícia por excesso de velocidade, dirigindo entre os municípios de Tenente Portela e Palmitinho, a cerca de 50 quilômetros de Três Passos, com Bernardo no banco de trás. Ela seguia para Frederico Westphalen, onde se encontraria com Edelvânia. Segundo o depoimento de um policial rodoviário, tanto o menino como a motorista aparentavam tranquilidade.

No decorrer das investigações, a polícia descobriu que Graciele havia administrado em Bernardo a primeira dose do medicamento via oral, com a desculpa de que o remédio era para evitar enjoos durante a viagem (ela tinha dito a ele que sairiam para comprar uma televisão).

A substância foi reaplicada depois, por via intravenosa, já na presença de Edelvânia. No dia 14 de abril de 2014, após o depoimento de Edelvânia, o corpo de Bernardo foi encontrado sem roupas, numa cova num matagal em Frederico Westphalen, cidade que fica a cerca de 80 quilômetros de Três Passos.

Após as investigações, a polícia apurou que Leandro e Graciele consideravam que Bernardo estaria atrapalhando a relação do casal. Já Edelvânia e Evandro teriam agido motivados por dinheiro, sendo que a ela, Graciele teria oferecido dinheiro para a quitação de um imóvel.

Placa feita por moradores, colocada na entrada da cidade de Três Passos.

A PARTICIPAÇÃO DE EDELVÂNIA 

Após fazer buscas pelo menino em Três Passos, a polícia chegou a Edelvânia Wirganovicz, em cuja casa foram encontradas uma pá e uma cavadeira. Na delegacia, depois de algumas contradições no seu discurso, ela acabou elucidando o caso, tendo depois levado a polícia ao local onde o corpo havia sido escondido, além de ter afirmado que Bernardo tinha morrido com a aplicação de uma injeção letal. 

Em julho de 2014, em entrevista ao Fantástico, disse: “Fomos lá naquele dia fazer o buraco. Mas, com a enxada não dava. Aí, fomos comprar as coisas. A pá, uma cavadeira. E a enxada foi jogada fora. Foi jogada no mato. Compramos um produto para dissolver a pele e não dar cheiro. Foi comprada uma soda”. Sobre o dia do assassinato, afirmou: “Entramos no meu carro. O menino sentou atrás. As coisas já estavam no porta-malas. Era uma pá e soda. Era o kit do remédio para matar, né. E então, ela foi no meu carro dirigindo. Eu fui no banco da frente, Bernardo foi atrás. Ela disse que ia levar ele numa benzedeira, que ia benzer ele. Disse que lá tinha que fazer procedimento, um ‘piquezinho’ na veia.” 

ANTES DO CRIME

Bernardo vivia com o pai e a madrasta, porém, segundo as investigações, a relação familiar entre os três não era boa. Em gravações apresentadas para esclarecer o caso, a madrasta chega a dizer “vamos ver quem vai primeiro para debaixo da terra” e “prefiro apodrecer na cadeia do que ficar nessa casa contigo incomodando”. 

A relação de Bernardo com o pai também não era boa. Numa gravação, onde Bernardo estava empunhando um facão, seu pai gritava algo como: “vamos, machão, faz alguma coisa com esta faca”. Testemunhas relataram, também, que Bernardo chegava a ficar vários dias fora de casa, sem que o pai o procurasse. Durante o julgamento, uma ex-professora do menino e testemunha do caso, disse: “[Bernardo] nunca ganhou colo do pai”. Ainda em 2014, Bernardo pediu a um juiz para mudar de família, o que, depois do crime, acabou causando uma discussão sobre o funcionamento da rede de apoio e amparo às crianças no Brasil.

Graciele Ugulini, Edelvânia Wirganovicz, Evandro Wirganovicz e Leandro Boldrini.

JULGAMENTO E SENTENÇA DOS ACUSADOS

Leandro, Graciele e Edelvânia foram presos ainda em abril de 2014. Evandro foi preso em maio do mesmo ano, após se descobrir que, poucos dias antes do crime, ele havia estado na área onde o corpo foi encontrado. Segundo o promotor Ederson Vieira, “o Evandro fez por dinheiro, não matou por prazer. Os outros três mataram por prazer”. 

Em sua defesa, Leandro disse que Graciele e Edelvânia haviam matado o menino, e não ele. Graciele afirmou que Leandro era inocente e que havia falsificado a assinatura dele para a efetuar a compra do medicamento. Disse, também, que a morte havia sido um acidente, mas que admitia ter errado do início ao fim. Em seguida, afirmou que Edelvânia quis levar o menino ao hospital após vê-lo desacordado. Segundo Edelvânia, ela quem comprou o medicamento e a pá. Além disso, ao ver o menino desacordado, ou sem sinais vitais, quis ir à delegacia, mas foi ameaçada por Graciele. Durante o depoimento, retirou a culpa do irmão Evandro e chegou a desmaiar.

O réu Evandro foi o último a ser interrogado. Ele negou todas as acusações, disse que não participou do crime e que “não conhecia esse lado da irmã”. Alegou que mentiu, inicialmente, em depoimento à polícia sobre ter estado nas proximidades do local onde o corpo de Bernardo foi enterrado por medo de ser culpado pelo homicídio do menino, mas que estava em férias, pescando.

A leitura da sentença foi transmitida ao vivo, em 5 de março de 2019, em rede nacional. Diversos sites também fizeram transmissões em tempo real. Todos os réus foram condenados, cabendo a aplicação de recurso.

Leandro: condenado a 33 anos e 8 meses de prisão em regime fechado por homicídio doloso quadruplamente qualificado, ocultação de cadáver e falsidade ideológica.

Graciele: condenada a 34 anos e 7 meses de prisão em regime fechado por homicídio quadruplamente qualificado e ocultação de cadáver. 

Edelvânia: condenada a 22 anos e 10 meses de prisão em regime fechado por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver.

Evandro: condenado a 9 anos e 6 meses em regime semiaberto por homicídio simples e ocultação de cadáver. Evandro, que já cumpria pena há 5 anos, cumprirá o restante no regime semiaberto.

Edelvânia Wirganovicz e Leandro Boldrini ao fundo.

A mãe do menino, Odilaine, foi encontrada morta dentro da clínica do então marido anos antes, em fevereiro de 2010. A polícia havia concluído que ela cometeu suicídio com um revólver. Mas a defesa da mãe dela, Jussara Uglione, contestou a versão. O inquérito foi reaberto. Concluído em março de 2016, a nova investigação não apontou indícios de homicídio. Para a polícia, Odilaine se matou.

Bernardo e sua mãe Odilaine.

26 anos, formado em Letras, Espanhol e Literaturas e grande fã de filmes de terror.

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