Jogador nº1 – Assista depois Leia! Resenha

Nerd com Dendê . Há 3 anos atrás

O mais novo filme de Steven Spielberg com a Warner Bros. prometeu nos colocar no mundo do livro com o mesmo nome, escrito por Ernest Cline, de 2011. Para quem não leu ainda, uma dica: pode rolar algum tipo de spoiler… mas livro e filme são tão diferentes que, provavelmente, você nem vai se importar…

Há diferenças grandes entre os dois, mas isso não estraga em nada a experiência de ambos. Ao assistir ao filme, teremos um mergulho pesado no ano de 2045 (2044 no livro), no qual a sociedade virou um ambiente sujo e destruído, em que a única forma de fugir deste mundo, está em uma realidade virtual, o OASIS.

Esse é um resumo bem sintético, porque é muito mais do que isso. O OASIS substitui muitos serviços estatais com vantagens, como educação, comunicação e até mesmo emprego. A visão do autor sobre isso é instigante e coloca o leitor em cheque em muitas de suas crenças modernas. Isso não é tão visto no livro, mas não atrapalha muito, como se poderá discutir mais tarde.

O OASIS é um universo maravilhoso, cheio de mundos de possibilidades, virtual e, ao mesmo tempo, real, criado por James Halliday (Mark Rylance, em uma ótima interpretação). Um ambiente criado a partir da imaginação e esforço de um criador que, em muitos momentos, beira o autismo, na sua dificuldade de relação social.

Isso não te lembra alguns jogos?

Quando dizemos “com base”, é porque  o universo de OASIS é inteiramente feito por aqueles que habitam o mundo. Primeiro, por seu amigo mais próximo, Oggy (Simon Pegg, de quem já já falaremos) e depois, por todos os bilhões de usuários, no melhor estilo MMORPG (Massive Multiplayer Online Role Playing Game).

Spielberg captura isso e deixa o público abismado com a quantidade de referências a cultura pop, não apenas dos anos 80 e 90 (que são as favoritas de Halliday), mas também a aspectos e referências da cultura pop atual. Jogos, filmes, séries, músicas, trilhas e desenhos. A quantidade de referências não tem fim! O que torna o filme, assim como o livro, um ambiente nostálgico por si só.

Onde o livro se mantém ligado aos anos, entre o final da década de 70 e início dos anos 90, o filme amplia a referenciação. Acreditamos que isso pode, com os anos, deixar o longa datado, o que não ocorrerá com o livro por conta da sua ideia geral de levar o saudosismo ao leitor mais velho e descoberta ao leitor mais novo. Isso se perde um pouco quando o filme traz muitas referências pop modernas. Mas isso não atrapalha em nada. Apenas deixa aquele gostinho “se tornará datado”, na boca.

A história ocorre em sua maioria dentro do OASIS, onde, após a sua morte, o programador e criador Halliday, ativa uma – anteriormente preparada – competição de busca para encontrar o seu Easter Egg (termo em inglês para ovo de Páscoa, e a caça desses ovos, muito utilizado em jogos para se referir a algum segredo escondido dentro do jogo).

Versão Funko das chaves, assim fica fácil encontra-las!

Nessa competição, o Gunter (Egg-Hunter) que encontrar o Easter Egg, poderá se tornar o novo dono de todo o sistema, dono do próprio OASIS é da fortuna do criador e dono.

Todos contra a IOI (Innovative Online Industries). Aliás, com rostos conhecidos, como Mendelsohn (Sorrento), que faz um enlouquecedor executivo em busca do Easter Egg. E com todos os recursos do mundo para poder fazer isso. A IOI representa toda a maldade das megacorporações que imaginamos em nossos pesadelos mais estranhos.

É aqui, caros amigos, que enlouquecemos com a quantidade absurda de referências e mais referências que o filme vai utilizar para contar a estória dessa  busca. A quantidade de personagens e exemplos variados faz o queixo cair a cada grande cena (e mesmo nas pequenas). De alguma forma, a produção conseguiu o aval de  várias empresas (não conseguimos nem ao menos imaginar quantas, mas teve uma lista no final do filme, que foi maior do que muitos agradecimentos que eu já vimos. Se quiser contar, fique a vontade…) para uso. Acreditamos que o fato de Spielberg estar a frente da coisa toda tenha sido de grande ajuda nas negociações…

Apesar das referências serem contínuas aos anos oitenta e noventa dentro do OASIS, os avatares dos jogadores não o eram. Por isso, percebe-se no filme, referências a tartarugas ninja, a overwatch, ao gigante de ferro, a battletoad, heróis e vilões de quadrinhos, espartanos de halo, mortal kombat, e inúmeros outros.

Eu entendi a referência!

Essas referências estão bem alimentadas em personagens criados por CG (Computação Gráfica) fazendo com que tudo dentro do OASIS se relacione coerentemente, a qualidade gráfica de tudo não deixa nada a desejar.

A única ausência realmente sentida foi às personagens da Disney (incluindo Marvel, Star Wars e turma do Mickey). Por algum motivo que não foi compreendido (leia-se “deve ter faltado grana”), pouquíssimos personagens apareceram. De Star Wars, mesmo, apenas um diálogo sobre a Millennium Falcon… como um objeto de desejo.

Aliás, retomando o deslumbramento, falando em CG, entramos também na qualidade da animação desses personagens, não apenas os cinco principais, mas todos os ajudantes, vilões, aparências de tela funcionam bem.

O dinamismo das lutas surpreende e o trabalho da equipe que participou na produção merece realmente palmas. Os cortes de cena, os ângulos, os movimentos… tudo funcionou nesse ambiente, o que trouxe cenários maravilhosos!

A fotografia do filme extrapola a mente do espectador logo de início e o que deixou-se a desejar fora do OASIS, dentro dele fica realmente extraordinário.

O mundo Doom e a corrida, por exemplo, são situações na qual os cortes de câmera e a continuação trabalham bem em um cenário digital.

Fora do OASIS, no entanto, tudo é menos certinho. É sentido, porém, que mundo não tem o ar de destruição e depressão completa que o livro dá a sentir (a falta de energia, o excesso de pessoas no mundo, o lixo e a decadência). O mundo é até normal, e isso deixa a narrativa do personagem principal de certa forma… vazia.

Ainda assim, o filme funciona bem. Conta bem a história… mas se você já leu o livro de Cline, vai ao cinema esperando uma história ou ao menos uma visão bem diferente dos personagens.

Consegue dizer todos os easter eggs?

Alguns aspectos foram desnecessariamente modificados. O ParZival (Tye Sheridan) perde boa parte de seu peso e motivação. Uma vez que ele é retratado como um usuário e não como uma pessoa criada pelo OASIS, pobre (inclusive dentro do jogo) e que é, acima de tudo, um libertário.

Não apenas ParZival é modificado, mas muitos outros personagens, e isso é um lado negativo para a história que se baseia em um livro. Os drama de Daito e Shoto… a raiva de Art3mis… a genial sacada de Aech… a participação de Oggy… fica o gosto estranho de “faltou algo”… Mas isso porque lemos o livro. Para aqueles que não o fizeram, sugiro que o façam depois de assistir ao filme.

E, independente disso, o filme é bom. A história funciona, explica e se desenvolve sobre ela mesma sem deixar pontas soltas. O longa surpreende o espectador, ao mesmo tempo em que ele compreende o que assiste, não havendo dúvidas que não são respondidas.

Também existem alguns momentos de amor adolescente que… convenhamos, esqueceremos por motivos de o protagonista ser um adolescente. E também por razões de que a história, mesmo nesses momentos, anda!

No quesito musical e trilha sonora, o filme está de parabéns! A trilha cheia de descobertas, a sonoplastia de movimentos, tiros e porradas, a musicalidade encaixada nas cenas, dá muita vontade de pegar as letras para ouví-las e, se você conhece bastante música dos anos 80 e 90, com as trilhas sonoras de filmes, se prepare!

No geral o filme é excelente em trabalho visual e musical. A interpretação dos atores é ofuscada por suas versões do OASIS e a narrativa é divertida.

 Spielberg traz um belo filme, com a diversão que se espera de seus filmes. Ainda que não seja um de seus melhores filmes, é digno de seu diretor e divertido tanto para os que viveram os anos 80 e 90, quanto para aqueles que estão descobrindo esse período.


Nome:
Jogador Nº1 (Ready Player One)
Lançamento: 29/03/2018
Duração: 2h20min
Diretor: Steven Spielberg
Escritores: Zak Penn, Ernest Cline (próprio autor do livro)
Elenco: Tye Sheridan, Olivia Cook, Lena Waithe, Bem Mendelsohn, Mark Rylance
Gênero: Ação, Aventura e Ficção Cientifica (Sci-fi)
Nota: 4 acarajés (com um pouquinho de guaraná, cigarrinhos de chocolate e mini chiclete)

Resenha por João Ricardo e Drickart.

Conteúdo nerd, com uma dose generosa de dendê

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