Tomb Raider — A Origem

Nerd com Dendê . Há 3 anos atrás

Tomb Raider – A Origem

“Uma filme de heroína que precisava ser mais”

Título: Tomb Raider – Origins

Lançamento: 15 de março de 2018

Duração: 182 minutos

Direção: Roar Uthaug

Elenco: Alícia Vikander, Daniel Wu, Walton Goggins, Dominic West, Kristin Scott Thomas e outros…

Escala: 2½ / 5 (dois e meio, de cinco) acarajés

    Antes de mais nada, vamos ao início de tudo: Sou apaixonado pela Lara Croft desde que vi, pela primeira vez, o jogo Tomb Raider, ainda quando jogava Play Station (o primeiro). Não tinha videogame em casa. Só fui ter muito tempo depois de minha adolescência ter começado e, por isso, todo o acesso que eu tinha era nas locadoras (alguém lembra disso?), onde a molecada se encontrava para poder jogar e fazer as coisas que só um bando de moleques é capaz de fazer quando se encontra.

    Sempre fui atraído por todo e qualquer tipo de boa estória. Os jogos nos quais me vicio, atualmente, dependem de boas estórias para serem contados. E, naqueles longínquos anos 90, as boas estórias não eram mais comuns do que são hoje. Acredite em quem sobreviveu aos anos 80 e 90: Não era essa maravilha toda…

    Desde que me conheço por gente, adoro essas estórias bem contadas. De aventureiros que tinham que usar o cérebro em aventuras que envolviam descobertas (ou redescobertas) contra inimigos mais poderosos e, quase sempre, sem rosto definido. Décadas antes, eram as estórias Pulp.

    Sempre fui fanboy de Indiana Jones…

    Mas minha primeira paixão de verdade foi pela Lara Croft.

    Ela era inteligente, esperta e sarcástica. Corajosa, ágil e linda. Era sexy como quase nada que eu conhecia naqueles tempos e, acima de tudo, era a mais Badass das Badasses do mundo!

     Lara Croft, em todos os seus jogos, era uma mulher que, usando suas armas (coragem, agilidade, beleza e, acima de tudo, inteligência e esperteza) não apenas enfrentava e vencia inimigos, independente de seus gêneros e motivações, por que ela era – não importando o quanto os oponentes eram poderosos – muito mais casca-grossa que eles, como o fazia com graça e agilidade.

     À Medida em que os jogos se sucederam, em plataformas diferentes, a sua mitologia se torno mais e mais complexa. Mais elementos se juntaram aos que existiam, tornando a personagem mais profunda, na medida em que o tempo passava.

    Pessoas se juntaram à sua vida. Oponentes recorrentes e organizações poderosas passaram por seu caminho até que, alguns anos atrás, ela parou de ser explorada na franquia Tomb Raider. Morreu e quase entrou para o limbo das boas personagens. Duas adaptações para o cinema foram feitas e, infelizmente, o resultado ficou muito aquém do que deveria ter sido. Angelina Jolie que me desculpe, mas ela não funcionou naqueles filmes, apesar de ter tentado realmente. Filmes ruins com uma boa caracterização dela… e só.

    Nós, os fãs, crescemos pensando que tínhamos perdido a Lara como uma paixão de infância que ficou para trás. Boas estórias pararam de ser contadas.

    Até que veio o reboot, com o fantástico Tomb Raider, em 2013, e a sua fabulosa sequência, o igualmente surpreendente Rise of Tomb Raider, em 2015. Nesses jogos, a Lara Croft volta a seu início de carreira, em busca do paí, seguindo as suas pegadas e se deparando com um inimigo não apenas poderoso, mas íntimo a si mesma. Se quiserem dicas de jogos, senhoras e senhores, joguem esses dois e entendam o que eu quero dizer com isso.

    Era a Lara de novo. Uma nova energia, claro. Novos conflitos e mais sofrimento envolvido no fato de que ela, nessas novas tentativas, é uma jovem Lara, antes de se tornar Tomb Raider, que está aprendendo a ser ela mesma e a lutar com homens normalmente cinquenta quilos mais pesados. Mais aquele forte senso de dever e lealdade aos seus amigos, além de uma enorme capacidade de sobreviver a tudo o que o mundo envia contra ela estão lá.

    Que jogos fantásticos. Que Lara Croft.

   Foi com esses jogos em minha memória afetiva e com a minha paixão pela Lara reacendida por essas experiências, que eu me deparei com as notícias e informações a respeito de um filme novo. Entrei na sala de cinema com olhos brilhando e querendo me encantar novamente com a Lara que tinha sido pincelada nos dois jogos. Até entendia que não dava para poder adaptar tudo o que estava lá, mas imaginava que iria pegar os elementos mais importantes e dizer: aqui está Tomb Raider.

A PARTIR DAQUI, ALGUNS SPOILERS… AVANCE POR SUA CONTA E RISCO!

    A Lara é bem representada pela Vikander. Talvez alguém com olhos mais expressivos fosse uma opção melhor, mas ela não compromete o que é apresentado com ela. O esforço, a raiva, a necessidade de se provar. Tudo isso está lá.

     Mas não passou muito disso não…

     Existe uma expressão para isso, aqui na Bahia. Deu Xabú…

    O filme é claramente baseado (ainda que, infelizmente, não na profundidade correta) ao roteiro e argumento do primeiro dos jogos do reboot. Muito se esperava disso!

    O sofrimento pelo qual ela passa pode ser visto em todo o filme, assim como nos dois últimos jogos, fazendo com que ela realmente se mostre como a casca-dura que realmente é. Gritos de dor e gemidos de esforço em suas conduções de cena. Não há uma queda simples e nem uma porrada que não doa em quem está assistindo o filme. Mas o filme não pode se basear apenas nisso. Isso deveria ser apenas um complemento da estória de superação e resistência frente ao mundo. Não rola assim, infelizmente…

    O Filme apresenta problemas de condução e roteiro que chegam a tornar a experiência se assistir a ele um exercício de crença e credulidade. Não apenas por barrigas na condução do filme, como ritmo arrastado em momentos que não deveria ser.

    Mas, acredito, o mais preocupante foi o fato de que as coisas que ela faz, com inteligência e perspicácia, acabam ocorrendo quase como magia, em muitos momentos. Não há logica em muitos dos enigmas que ela resolve, indo do absurdamente impossível até o nível jardim da infância. Por vezes me senti insultado dentro do cinema.

    A Relação dela com o pai (numa canastrona interpretação de Dominic West), por outro lado, até que começa de uma forma convincente, até o momento em que uma solução absurda com a mitologia da personagem (em todas as mídias, salvo engano) é dada. Lara só se torna o que se torna, por querer seguir os passos do pai, em sua ausência. O roteiro derruba isso com uma solução ridícula e, logo depois, tenta consertar.

    Falha miseravelmente.

    É um roteiro que se torna previsível.

    Além dos furos, que podem ser enumerados rapidamente. Como uma lutadora de boxe se mostrar uma mestre em Jiu-jitsu (que deveria ser, como personagem, aliás) que apesar em duas cenas mostra isso. Como existir uma ilha isolada, recebendo mantimentos regulares por via aérea, mas que não permite que ninguém saia a sete anos. Isso inclui os capangas? A sete anos, armados até os dentes?

    Como é que todo mundo sabia do pai de Lu Ren, que tinha chegado a sete anos, na Ilha? Se eram escravos, como sobreviveram tanto? Onde diabos o Richard conseguiu uma maldita tesoura e por que o Mathias disse que tinha matado ele, a sete anos, com tanta certeza? E o lance da formação acadêmica da Lara Croft?

    Um começo até divertido e misterioso, que me lembrou, em momentos, a ideia do Nolan em Batman Begins. Mas que dá no saco quando se percebe que ela, a Lara, não usou esse tempo para se tornar mais e melhor. Ela se mostra apenas uma órfã traumatizada que aguenta porrada. E que, por birra, se recusa a acreditar que o pai está morto. Cade a preparação? Bater num saco de boxe? Sério?

    Descobrimos, em poucos minutos, o real rosto do inimigo, mas fingimos que não sabemos nada disso, até as cenas finais. Quer mais? Por que alguém esconderia uma sala secreta na própria tumba… se ainda não estava morto quando saiu? Ele construiu o quarto secreto e fez uma tumba para si mesmo? Ou pediu para alguém fazer e por o quarto e a tranca lá? Ainda mais com o puzzle que tinha a chave. Entendo que a gravação seria realmente uma boa ideia. Mas uma tumba inteira? E ninguém desconfiou que ele construiu a própria tumba antes de morrer? E se fizeram depois, como não acharam um mecanismo inteiro da parede que estavam construindo?

    Não encaixa. É forçar demais a minha crença…

    Mas passamos por isso tudo e aceitamos… O show tem que continuar. Mas que maldita bateria de câmera é aquela, que ainda, depois de sete anos, está carregada? E a poeira nos equipamentos? Alguém descia para limpar? E os Mac presentes? Será que ninguém percebeu que, numa propriedade fechada e totalmente desabitada, consumo de energia seria suspeito? Por que parte dos equipamentos estava ligada quando ela entrou!

    Ai, temos a loja de penhores, o navio com mesmo nome do navio que o pai pegou. A corrida que ela, a Lara, toma de delinquentes de rua. Caramba… se eles tinham faca, por que não enfrentaram quando ela correu atrás? Metade de Hong Kong fala inglês, por que, por quase cem anos, aquilo foi PROTETORADO INGLÊS. Como ninguém no porto falava essa língua, além dos ladrões e do Lu Ren? Ninguém? Sério?

    Mas houveram momentos de alívio. Chegamos à bela sequência do naufrágio. Muito fiel e muito angustiante. Muito gostosa de se ver e com uma condução de cena e de efeitos que realmente captaram a agonia de estar em um naufrágio em mar revolto. Parabéns aos envolvidos.

    E começa todo o arco dentro da ilha. Do surgimento do Mathias e seus capangas até os elementos que levam todos à buscarem a tumba. Muitas porradas e saltos, muitos gemidos e lutas contra a gravidade e contra as probabilidades. Mathias, aliás, um vilão sem motivação real e quase robótico. O competente Walton Goggins merecia um papel melhor e percebe-se que ele se esforçou para melhorar o papel mal escrito. Tem coisas, porém, que não podem ser salvas.

    E ai a coisa começa a ficar chata, com aquela personagem que é protagonista da zorra toda, ao que parece, começando a ser levada de um lugar para o outro. Poucas vezes ela consegue tomar a rédea de seu destino, no filme, sendo conduzida por um e por outro, entre uma queda e uma porrada e outra.

    O que me faz pensar, comigo mesmo: “Sinto realmente pena dos dublês!”.

    Depois, um arco que não passa credibilidade, dentro das tumbas e cavernas da ilha, em busca do prêmio. Mais uma vez, a falta de crença não permite sentir o medo que devia vir da situação. E isso corre até a sequencia final. Os momentos de resolução do filme se mostram tentativas de acertar pontas soltas. E, depois disso, até mesmo um gancho é deixado para um segundo filme (que precisa ser feito, até para tirar esse gosto estranho da boca), com uma piadinha que não acrescenta absolutamente nada ao enredo final.

    Em resumo, a experiência pode ser definida como um filme que poderia ser assistido num dia de semana, pela tarde ou numa viagem de avião. Não é marcante como poderia ter sido, o que é uma pena, uma vez que a Lara poderia e deveria ser muito melhor trabalhada.

    Estamos falando, em um mundo cada vez mais exigente de representatividade, de uma das mais geniais personagens femininas da cultura POP. Uma personagem forte e comprometida em ser grande por ela mesma, e não pela dependência de uma figura masculina qualquer (mesmo que seja o pai). Ela é a Tomb Raider! A Corsária de Tumbas! Poderia e deveria, por conta disso, de ser o epiteto da mulher forte.

    Ela não é superpoderosa. Não é uma deusa, não tem superpoderes e nem a capacidade de seduzir pessoas para que façam o que ela quer (pelo menos não depende disso… mas, falando a verdade, é sedutora sim). Ela é uma mulher comum, com medos e fragilidade, mas que, pra cada vez que cai, se levanta. Ela se fere, se machuca, grita de dor, mas SEMPRE se levanta. Não apenas isso, ela é esperta e inteligente. Geniosa e irônica. A sua riqueza não a faz especial. Tanto que a relação dela com dinheiro é meio estranha, no filme.

     Ela é especial por que é um mulherão da porra!

    Ou era assim que deveria ter sido apresentada nesse filme. Nesse aspecto, os jogos foram melhores. Tomara que isso mude, em uma possível futura sequência, onde sua “foderosidade” poderá ser melhor explorada.

    Infelizmente, faltou pimenta nisso.

Conteúdo nerd, com uma dose generosa de dendê

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